Uma espectadora renascida

Uma espectadora renascida
Susana Pereira andou afastada devido aos afazeres profissionais e familiares, agora está de regresso

Gonçalo Frota

Aquilo que distingue a história de Susana Pereira de tantas outras semelhantes é o desfecho (que está ainda a construir). Susana começou a frequentar salas de teatro com os pais, deslocando-se com regularidade de Oeiras até Lisboa para espreitar o que os palcos tinham para oferecer. Era adolescente, lia com avidez, descobria o que o mundo tinha para lhe mostrar com um entusiasmo desmedido e acreditava que também no teatro era convidada a abrir alçapões para as infindáveis revelações que estavam à sua espera. Só que, depois, como acontece com mais casos do que aqueles que alguma vez conseguiríamos contar entre os nossos conhecidos, a vida ganhou peso. A maior despreocupação e a maior disponibilidade típicas da adolescência deram lugar às crescentes responsabilidades – primeiro como estudante de Direito; depois como advogada e como mãe.

E essa é a tal história comum: o início da vida activa e a constituição de família levam, quase fatalmente, a um calendário de espectador emagrecido até quase ser esquecido. Dos tempos em que começara a assistir às peças do Teatro Independente de Oeiras à frequência habitual do Teatro Aberto, da Comuna e do Teatro Maria Matos, foram ficando apenas as memórias, descontinuadas no percurso de Susana de forma abrupta. Mas eram memórias intensas – desde que começara a ir com os pais ao teatro, esses momentos eram para ela “um acontecimento”. Ficou-lhe profundamente marcada, por exemplo, a vez em que se dirigiu, em 1999, ao Teatro Aberto para assistir a "Luz de Inverno", de David Hare. Tinha 17 anos e a história de um reencontro entre dois antigos amantes (mais o filho dele metido ao barulho) impressionou-a pelo ambiente intimista que se criava em palco.

“Quase que estávamos ao colo dos actores”, diz ao regressar ao entusiasmo de então, a um daqueles momentos em que prometeu a si mesma que não podia deixar de procurar emocionar-se assim nas salas de teatro. Ainda hoje solta, sem hesitações, o nome desses actores que continua a carregar consigo: João Perry, Margarida Marinho e o “ainda pouco conhecido” Diogo Morgado. Só que depois, como escrevíamos acima, a vida carregou-a de obrigações e as salas de teatro tornaram-se estranhamente distantes.

Antes de o Primeira Vez lançar o isco que a devolveu ao seu lugar de espectadora, Susana Pereira entrara numa única ocasião no Teatro Nacional D. Maria II – em 2004, para ver uma peça cujo nome a memória tratou de varrer, protagonizada por Maria Henrique. Em casa, porque se falava muito de teatro, tinha gravado as descrições entusiásticas com que a sua mãe lembrava Eunice Muñoz, no lugar da "Mãe Coragem", de Brecht, a que assistira no D. Maria II na histórica produção de 1986. Apesar disso, na adolescência e no início da vida adulta, não havia de se aproximar muito do Nacional. Sentia que “era para uma elite”. “Agora, que vou lá com muita frequência, já não acho que seja para uma elite”, confessa. Até porque quaisquer reverências e salamaleques com a sala foram entretanto totalmente eliminados. “Sinto que já lhe posso chamar ‘o Nacional’ – passei a ser uma habituée, já o posso chamar assim.”

O Primeira Vez entrou na vida de Susana Pereira – e do seu marido – quando a vida familiar estava, por fim, estabilizada e, de repente, a exigência dos horários e das obrigações profissionais e pessoais reencontrava um equilíbrio que permitia umas escapadelas culturais. “Não custa nada”, argumenta, explicando que o Primeira Vez se assemelha a “um PT [personal trainer] cultural”. E isto porque assim se ultrapassa também uma das dificuldades observadas por Susana na vontade de retomar uma actividade regular como espectadora: depois de muitos anos desligada dos teatros, a imensa oferta oferecida por Lisboa pode ser paralisante para quem não sabe bem por onde recomeçar. Com a garantia de uma escolha criteriosa a partir da riqueza da programação do Teatro Nacional D. Maria II, tudo fica mais fácil.

Durante a temporada passada foram quatro as peças a que Susana assistiu. Em número suficiente para despertar o seu músculo de espectadora e a recordar do quanto, para si, a experiência do teatro é mais compensadora do que, por exemplo, a do cinema – “sobretudo com as pipocas e o som altíssimo”, compara. “Nem toda a gente vai ao teatro e é mais fácil arranjar companhia para o cinema; mas só porque o teatro não é tão mediático. No teatro estamos a assistir às emoções ao vivo e em directo, não houve várias takes até se conseguir aquela cena. Isso torna o espectáculo muito mais genuíno.” Findo o seu ciclo com o Primeira Vez, Susana não quis depois desligar-se desta cumplicidade criada com o Teatro Nacional. Começou, por isso, a aventurar-se por sua conta e risco na programação da sala e aderiu, mais recentemente, ao Clube Somos Todos Espectadores – um grupo que reúne mensalmente para debater em contexto informal alguns dos espectáculos do D. Maria II.

Até porque este continua a ser um espaço conquistado por Susana (em casal) que funciona como “uma cápsula do tempo”. “Estamos ali [no teatro] um pouco protegidos, falamos no caminho para casa e assim que pomos a chave à porta acabou-se. No dia-a-dia acabamos por não ter muito tempo para discutirmos sobre os sentimentos das personagens, aquilo que compreendemos ou não, o porquê de uma personagem ter uma certa postura.” Ainda assim, embora o quotidiano roube muita da disponibilidade para trocar ideias sobre aquilo que vê em palco, a verdade é que, por vezes, acontece as personagens, as situações ou o lastro emocional das peças invadirem os dias de Susana. E lembra, por exemplo, o quanto algumas frases de "Sopro", peça de Tiago Rodrigues, continuaram a ressoar na sua vida muito depois de os aplausos se terem extinguido.

"Sopro" assenta numa relação com a realidade a que Susana Pereira gosta muito de assistir. Ela que é adepta de filmes biográficos ou baseados em acontecimentos reais, gosta de encontrar no teatro essas mesmas ligações com a vida fora das salas. Só não lhe falem de séries de advogados como se replicassem com fidelidade aquilo que acontece na rotina de quem de facto exerce a profissão. Susana, que vai a tribunal todas as semanas, não foi para Direito convencida de que a sua vida profissional seria igual à das personagens dos pequenos e grandes ecrãs. O tribunal como lugar para os grandes discursos, garante, só existe na ficção. O seu trabalho é antes o de chamar a atenção para o devido enquadramento legal de cada caso e argumentar nesse sentido. A redescoberta da vida cultural, por outro lado, dá-lhe o reverso dessa rotina e devolve-lhe um sentimento familiar dos anos de adolescência: a certeza de que há todo um mundo, inesgotável, por detrás de cada espectáculo. Afinal, o mundo só deixa de se expandir se o permitirmos.



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