Teatro para ver a partir de casa

Teatro para ver a partir de casa
Em tempo de recolhimento, há muitas propostas online para o espectáculo continuar.

Catarina Homem Marques

A porta da sala ainda não abriu e já o lobby se agita de conversas e encontros entre amigos de bilhete na mão. Depois, vai-se entrando, encontrando talvez mais uma cara amiga, ou apenas procurando a cadeira certa pelo meio da alegria expectante da multidão que está já perto de ver o espectáculo que escolheu. No palco, os actores vão estar mesmo ali, tão verdadeiros, para o bem e para o mal. E no fim, depois dos aplausos que só ressoam porque se partilham a muitas mãos, ainda há aquela conversa sobre o que se viu, ao mesmo tempo que há a conversa do lado, e a do lado, tão diferentes e tão iguais afinal.

Ir ao teatro é também isso, como sabe quem já lá foi pela PRIMEIRA VEZ, ou pela segunda, ou tantas vezes que já nem dá para contar. É o espectáculo, mas é também isso tudo, cada passo a descer a sala, aquela pessoa que ri alto, a outra que está a adormecer, tudo tão próximo como a cabeça irrequieta da pessoa da frente. Só que agora, por uns tempos, é mais importante ficar em casa. O que não significa que o espectáculo não possa continuar – mais do que nunca, como em todos os tempos de dúvida ou que exigem o melhor de nós, o teatro é necessário.

A pensar nisso, já há vários teatros e companhias a apresentarem, gratuitamente, espectáculos online. Mesmo com toda a gente em casa, o teatro não pode parar. É aproveitar a oportunidade para descobrir peças novas, para rever ou para apanhar aquela que saiu de cena sem que tivesse tido tempo de ir. É para ver sozinho, de pijama ou em roupa de gala, com a família ou em simultâneo com alguém que esteja à distância, mas a quem se pode ligar depois para trocar ideias – a cortina vai então subir à distância, pelo menos até tudo melhorar e as salas reabrirem para a experiência completa, ao vivo, pela qual vale sempre a pena esperar.

O Teatro Nacional D. Maria II começou já na semana passada o projecto “D. Maria em Casa”, que promete estrear todas as sextas-feiras, pelas 21h, uma peça de teatro em vídeo. A primeira, “Montanha Russa”, de Inês Barahona e Miguel Fragata, já se encontra aqui: https://vimeo.com/showcase/6879385. E outras a ela se juntarão, pelo menos até à primeira semana de Abril. No Dia Mundial do Teatro, que se celebra esta sexta-feira, dia 27 de Março, há mais duas estreias nesta plataforma: uma logo às 11h, “A Origem das Espécies”, que é para maiores de seis anos e se pode ver com as crianças, e outra às 21h, uma criação de Tiago Rodrigues que partiu do palco do TNDMII mas já correu o mundo – “Sopro”.


O Teatro Aberto também começou com a iniciativa “Teatro Aberto em Casa” no dia 19 de Março, com a apresentação online da peça “A Mentira”, de Florian Zeller, uma encenação de João Lourenço. A ideia inicial era transmitir esta e as peças seguintes sempre às 21h, em www.teatroaberto.com, mas devido à afluência houve um alargamento dos horários. Agora, o calendário de estreias segue como previsto, mas a partir de dia 27, Dia Mundial do Teatro, o registo dos espectáculos passa a estar disponível entre as 16h e as 00h: depois deste “A Mentira”, seguem-se então “A Verdade”, também de Florian Zeller (26 de Março a 1 de Abril); “Vermelho”, de John Logan (2 a 8 de Abril); “Noite Viva”, de Conor McPherson (9 a 15 de Abril); “O Preço”, de Arthur Miller (16 a 22 de Abril); e “Amor e Informação”, de Caryl Churchill (23 a 29 de Abril).

O Teatro do Bairro optou por partilhar, pelo menos até dia 27, um documentário de João Botelho sobre a construção do espectáculo “Moby Dick”, de Herman Melville, uma encenação de António Pires que esteve em cena no São Luiz em 2007. “A Baleia Branca, Uma Ideia de Deus” pode ainda ser visto aqui: https://vimeo.com/398633628

Também o Teatro da Cidade já está a partilhar, até dia 29 de Março, o espectáculo “Lamento de Ĉiela”, de Guilherme Gomes, “a fim de fazer do período de isolamento social um momento enriquecedor, contrariando a violência que é estar-se isolado”, como explica a companhia nas suas redes sociais. O que faz ainda mais sentido quando se trata de “um espectáculo sobre solidão”, como poderão todos os que estiverem interessados confirmar através deste link: https://bit.ly/2UCGFqV

Na mesma toada, lembrando que “aqui chegados, vamos continuar, temos de continuar, precisamos de continuar. Fazer Teatro urge, mais do que nunca”, nas palavras de Carlos J. Pessoa, o Teatro da Garagem começa a disponibilizar a partir de hoje, 26 de Março, a sua nova criação, “Mundo Novo”, em 15 episódios online que se vão reunir aqui: https://bit.ly/2Uj60XY. E o Teatro do Noroeste, de Viana do Castelo, estará a transmitir uma peça teatral todos os dias no seu canal de YouTube, pelo menos até dia 9 de Abril.

Se este movimento de partilha teatral já estava a decorrer através de várias propostas, o já referido Dia Mundial do Teatro, que se celebra no dia 27 de Março, veio despertar ainda mais iniciativas, tendo em conta as circunstâncias de recolhimento que são essenciais nesta altura.

A Culturgest vai assinalar a data com a transmissão em streaming daquela que foi a peça mais vista de sempre na sua sala: “100% Lisboa”, da companhia Rimini Protokoll, colocou em palco 100 habitantes da capital portuguesa, e vai estar disponível online às 21h desta sexta-feira, a partir do canal de YouTube ou da página de Facebook da Culturgest.

O Teatro Nacional São João junta-se às celebrações “caseiras” deste dia abrindo as portas virtuais para uma visita guiada, logo às 18h, e depois, às 22h, com a peça que tinha estreia em palco marcada precisamente para o dia 27: “Castro”, uma encenação de Nuno Cardoso da tragédia renascentista portuguesa sobre o amor entre Pedro e Inês. O ponto de encontro para estas iniciativas é aqui: https://vimeo.com/showcase/tnsj.

Nesse mesmo dia, indo da sua sala directamente para a sala de jantar do actor Albano Jerónimo, poderá assistir ao monólogo da peça “Veneno” em formato “NETeatro”, interpretado em streaming a partir das 21h nas redes sociais da companhia Teatro Nacional 21. A partir das 10h30, nas mesmas plataformas, serão partilhadas leituras encenadas feitas por vários actores, como Isabel Abreu, Ana Bustorff, João Reis ou Anabela Moreira.

E como depois do Dia Mundial do Teatro vão continuar a surgir novidades, na segunda-feira seguinte, pelas 18h, está já marcada a estreia do trabalho conjunto da Comédias do Minho e do Teatro Frio, com um filme que tem estado a ser preparado a partir do espectáculo “ECO – Reverberações no Vale do Minho”. Era suposto que a peça percorresse cinco municípios, de Melgaço a Vila Nova de Cerveira, todos eles com planos de contingência que levaram à suspensão do projecto.

É ficar atento às indicações através das páginas de Facebook de ambas as companhias, porque estar atento a estas iniciativas é também uma forma de resistir ao impacto que a situação que se vive está a ter para as estruturas e profissionais do espectáculo.



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