Cadernos de

Teatro D.Maria II

Cadernos de
40 cadernos de um diário semi-transparente

Gonçalo Frota

Quem escreve um diário pode fazê-lo por muitas razões diferentes. Pode encontrar nas folhas de papel (de gramagem real ou digital) um confidente para os seus amores e desamores, pode vingar injustiças e corrigir aquilo que deveria, afinal, ter respondido quando A disse X ou B fez Y; pode encontrar maneira de organizar os seus dias e os seus pensamentos sobre aquilo que lhe acontece(u) ou gostaria que tivesse acontecido; pode registar-se a cada momento para, mais tarde, olhar para trás e encontrar nesses escritos um espelho daquilo que foi em tempos; pode, pode, pode.

Cadernos de implica deixarmos um espaço em branco como parte do título. É um espectáculo com texto e direcção de Raquel S. e co-criação e interpretação de Maria Jorge. Mas as palavras que Raquel S. encadeia e Maria Jorge diz, por vezes, numa velocidade estonteante, de entradas que se sucedem sem tempo para pausas, outras vezes dando ao/à espectador/a o espaço para nelas mergulhar e se reconhecer têm, afinal, origem pouco clara. Cadernos de não nos diz, portanto, a quem pertencem estes cadernos, pejados de anotações do quotidiano, tão íntimas quanto profundas, tão profundas quanto irrelevantes, tão irrelevantes quanto verdades absolutas do momento em que foram escritas, tão verdades absolutas quanto verdades questionáveis quando vistas e lidas à distância.
Diz Raquel S. que estes 40 cadernos, arquivo pessoal e sentimental de 20 anos de uma mulher que não sabemos quem é, lhe foram confiados por uma amiga para que deles fizesse o que lhe aprouvesse. Se assim foi ou não, pouco importa; se é ficção ou histórica verídica, é indiferente. Até porque, não há como deixar escapar essa frase, ouvimos da voz de Maria Jorge em palco “Eu não sou uma oradora fiável”. E claro que isso pode querer dizer diferentes coisas. Pode a actriz trair a palavra escrita e decidir inscrever-se no texto, fazendo daqueles diários também coisa sua e não apenas débito de vida alheia; pode a encenadora assumir que criou uma ficção em palco e nada daquilo é verdade; pode a mesma encenadora pegar em materiais que lhe foram confiados e manipulá-los até se aproximarem a uma forma teatral que lhe agrade, independentemente da vida que lhe está na origem; pode a verdadeira autora estar apenas a admitir que o acto da escrita transforma aquilo que lhe aconteceu ou que assim que coloca a descrição de um beijo no papel esse beijo já vai embrulhado numa fantasia que cada um se permite ao narrar a sua vida. Pode, pode, pode.

Talvez se escreva o título Cadernos de sem autoria definida porque essa autoria não existe – talvez seja a síntese de alguém que escreveu, alguém que remontou os textos para lhes dar sentido em palco, alguém que os reordenou para os poder dizer em público. Mas Cadernos de questiona também a autoria quando alguém que escreve aos 13, 20 ou 30 anos não é necessariamente a mesma pessoa. E dir-se-ia que interessa sobretudo ao espectáculo essa inconstância e essa liberdade de contradição de quem se é em cada dado momento.

Há de tudo nestes 20 anos de escrita diarística: de inocências adolescentes vertidas para pensamentos e poemas capazes de atingir valores históricos na escala do embaraço pessoal, a rasgos de marcada profundidade. Tudo baralhado, misturado e distribuído sem qualquer preocupação cronológica. O tempo, se é uma recta, pode ser partido aos bocadinhos e recomposto à vontade da freguesa. E a velocidade vertiginosa com que Maria Jorge se agarra, de tempos a tempos, à leitura de algumas das páginas destes cadernos aproxima-nos do exercício de quem, com estes volumes na mãos, os folheia, espreitando aqui e ali, até se deter, por fim, em fragmentos sobre os quais se demora – porque o assunto interessa, porque o assunto desencadeia memórias próprias, porque se trata de um trecho especialmente revelador ou satisfatório para o voyeurismo de quem lê. Porque, porque, porque.

Maria Jorge está em palco vestida com uma roupa transparente – sem o ser completamente. Como se a víssemos sem a vermos de facto, como se escolhesse expor-se sem se mostrar por inteiro. Aquilo que partilha em texto tem essa mesma qualidade – desvenda mas não escancara as portas para uma invasão irremediável. Há nestes cadernos um misto de exposição e pudor, de confissão e resguardo, de verdade e ocultação.

No palco acende-se também, a dado momento, a palavra “solidão”. Uma solidão luminosa, incandescente, num neón a chispar orgulho por se acender no D. Maria II. Não é, por acaso, claro, que Maria Jorge está sozinha em palco. Sozinha, é como quem diz, porque está rodeada das palavras de outra pessoa, mas que são também suas. Mas, sim, toda a escrita diarística é também um acto de solidão, de recuo perante o mundo, de esgravatamento interior. E também não é exactamente solidão porque, com caderno à frente e caneta em punho, estar sozinho é também, mais do que nunca, estar consigo própria. Porque olhar-se, contar-se, problematizar-se, questionar-se não é a mesma coisa do que estar sozinha de indicador nervoso a fazer deslizar fotografias no telemóvel ou de olhos cansados a seguir vidas mais ou menos fantasiosas em ecrãs de vários tamanhos.

Ao escrever Cadernos de , a autora – quem quer que seja – assume os seus erros ortográficos. Quer porque na altura em que escreveu lhe fugiu a mão para fora das regras gramaticais, quer porque nalguns momentos se achou no direito de escrever como quem fala e de escrever com toda a legitimdade de decidir os termos em que o faz – já que escreve a sua vida e da sua vida sabe ela, quem quer que seja, mais do que qualquer outra pessoa. Mas escrever com erros é também saber que se escreve a partir dos erros e dos arrependimentos que carregamos ao longo dos anos. Esta mulher escreve com erros porque tem consciência de que o presente que vai escrevendo não deixará de parecer esburacado, estragado, incompleto, errado alguns passos mais à frente.

Entre o humor e a melancolia, Cadernos de avança e recua no tempo, saltita de página em página, e lembra que a identidade é uma construção permanente e muito dada ao atropelo. Muitas vezes atropela-se até quem se era no passado, tendo de encaixar as dores deixadas pelo choque. Mas é uma inevitabilidade. Quem nunca foi atropelada pelo seu passado que atire o primeiro diário. Alguma página há-de cair no colo.

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