Armando mergulha no teatro

Armando mergulha no teatro
Após uma vida dedicada à Biologia Marinha, o sobrinho de Armando Cortez encontrou o palco

Gonçalo Frota

Numa das paredes do seu gabinete na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Armando Almeida guarda um mapa que assinala os vários pontos do mundo onde assentou os pés. Mas também os lugares onde já não se encontrava sobre terra firme e desceu mar abaixo em busca de imagens de maravilhamento subaquático. Em férias, a caminho de congressos da sua especialidade ou em missões científicas na qualidade de biólogo marinho, andou pela Austrália e pela Nova Zelândia, por Moçambique e por São Tomé, pelo Quénia e pela Ilha da Reunião, por Timor e por Madagáscar, por Marrocos e pelos Açores. Sempre movido pela curiosidade, atraído pela observação dos animais, mesmo que as ocasiões de lazer nem sempre se mostrassem compatíveis com escapadelas para se deslumbrar perante mais um coral ou uma pouco frequente espécie íctica.
Foi uma vida que começou a esboçar-se, como sempre acontece, quase sem dar por isso. Ao terminar o liceu, numa altura em que os seus interesses tanto o puxavam para o estudo dos animais quanto para o desporto – havia um passado ligado à ginástica desportiva que o fazia ponderar seguir para o Instituto Superior de Educação Física –, Armando chegou a casa um dia e anunciou aos seus pais que iria seguir Biologia. Embora sólida, era ainda uma decisão abstracta, com as certezas e incertezas próprias dessa fase da vida. Já durante o curso, ao cruzar-se com um professor que era também monitor nacional de mergulho, uma luz mais clara apontou na direcção do seu futuro quando Armando juntou a sua voz à de um grupo de alunos que pedia a criação de uma cadeira de biologia marinha. “Foi na altura em que se deu a gloriosa Revolução dos Cravos”, recorda, “a que se seguiu também a revolução dos cursos nas universidades, numa agitação em que se criavam muitas possibilidades novas. E então o professor Luiz Saldanha criou as cadeiras de Oceanografia Biológica e de Ictiologia [estudo dos peixes]”.
Luiz Saldanha, um dos mais reputados biólogos marinhos em Portugal, havia de revelar-se ainda fundamental no percurso de Armando quando, mais uma vez, e entusiasmados pela fotografia submarina que o docente praticava e levava para as aulas, os alunos lhe pediram aulas de mergulho. “Foi ele mesmo, porque era monitor nacional, que incentivou aqueles que queriam fazer mergulho; era ele quem levava algum material e que foi connosco para a praia – emprestava-nos os fatos, as garrafas, levava-nos para debaixo de água e deu-nos o curso de mergulho que não pagámos em nenhuma escola.” Se já antes, de uma forma menos elaborada, Armando Almeida “gostava muito de andar a espreitar as coisas debaixo de água” – da mesma maneira que sempre gostou de ir para o campo fotografar pássaros e insectos –, a verdade é que acabou por ver despertado um interesse muito concreto que o encaminhou para missões nas Berlengas, em Sagres ou nos Açores, para um estágio final de curso em peixes litorais e um doutoramento dedicado aos povoamentos do Rio Mira.
Após uma pós-gradução em Marselha, possível graças a uma bolsa que Luiz Saldanha, o seu “pai do ponto de vista científico”, conseguiu junto da Embaixada de França – um ano em que aprofundou os seus estudos na cidade mediterrânica –, Armando Almeida foi convidado para professor assistente da Universidade de Lisboa e ali fez toda a sua carreira, sobretudo na qualidade de regente de Ictiologia e Biologia Marinha.
Por coincidência, quando se preparava para a reforma e pensava em que ocuparia o tempo livre que tinha pela frente, passou-lhe pelos olhos o anúncio da criação do Grupo de Teatro dos Funcionários da Universidade de Lisboa (GTFUL). A convocatória vinha acompanhada de data e local para os interessados se apresentarem. Armando seguiu as instruções, para avaliar o ambiente, ver quem eram os outros envolvidos, escutar do encenador João Ferrador o que pensavam ou não fazer dentro daquele colectivo informal. “Sempre gostei deste tipo de brincadeiras, mas nunca tinha representado”, diz Armando, permitindo-se uma viagem rápida aos tempos de adolescente, altura em que gostava de se mascarar e correr o prédio de quatro andares nas Avenidas Novas a “bater à porta e pregar partidas” à vizinhança. No seu passado, a única abertura às artes que escola lhe oferecera tinha sido a participação num grupo de canto coral, em que os mais desafinados – era o seu caso – eram cuidadosamente colocados pelo professor ao fundo da sala, onde mal se ouviam. “Pensei que nem era tarde nem cedo e que ia experimentar. Experimentei, gostei e, desde então, tenho brincado ao teatro.”
Para Armando Almeida, é de brincar ao teatro que se trata, num sentido lúdico e diversão – escolha de palavras própria de quem conheceu através do tio, Armando Cortez, a seriedade e a exigência da profissão de actor. Graças a essa proximidade familiar, Armando cresceu com a imagem daquele tio sempre num frenesim, cujas visitas a sua casa aconteciam muitas vezes em passo de corrida, sempre a caminho de algum espectáculo, ensaio ou gravação de uma rádionovela. O parentesco garantia convites para assistir às suas peças e às de Manuela Maria e Fernanda Borsatti (as duas actrizes com que Cortez foi casado), privilégio que Armando aproveitou sobretudo nos tempos de faculdade – antes disso, na adolescência, tivera um episódico par de visitas ao Teatro Nacional D. Maria II, sala a que só voltou agora, com o projecto Primeira Vez.
“Habituei-me, portanto, a ir ao teatro para ir ver os meus tios”, confessa. Só que essa relação de espectador frequente dos seus familiares foi também alimentando a admiração pelo trabalho dos actores e a curiosidade em ver-se a experimentar o palco. “Não era com objectivo de seguir carreira, de maneira nenhuma”, garante sobre a sua decisão em juntar-se ao GTFUL. “Não era essa a intenção, mas gostava de perceber melhor o teatro.” Com décadas de experiência a dirigir-se a plateias (nas salas de aula), o grande desafio que o teatro apresentou a Armando foi a memorização do texto, daquelas palavras que não podiam ser outras. “Nas aulas, uma pessoa sabe o que tem de dizer e se não for exactamente com aquelas palavras transmite na mesma a ideia”, compara. “No teatro, se não dizemos precisamente aquilo podemos entalar o colega que está à espera de uma determinada deixa.”
Nem as ‘brancas’, no entanto, atrapalharam Armando Almeida nas poucas ocasiões em que o apanharam de surpresa. Aprendeu a improvisar e a desenvencilhar-se, da mesma maneira que recebeu ensinamentos sobre projecção de voz e todo o tipo de funções (assegurar a iluminação, garantir o guarda-roupa e até limpar o palco no final da sessão) que uma pequena companhia, sem equipa técnica, tem de assumir para montar um espectáculo. Toda uma aprendizagem que alterou a sua sensibilidade igualmente enquanto espectador. Agora, enquanto participante do Primeira Vez e público regular do Teatro Nacional D. Maria II, há um sem-fim de pormenores a que a sua atenção se prende. Como, por exemplo, a forma como os actores contam ou vivem a história ou a movimentação em cena.
Olhando de novo para as paredes do seu gabinete na Faculdade de Ciências, não há apenas um mapa que assinala as suas viagens pelo mundo. Há também uma série de cartazes das peças que Armando Almeida fez até hoje com o GTFUL, muitas delas apresentadas no âmbito do FATAL (Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa), que mapeia as suas experiências de actor. No palco, já foi padre, censor, Ary dos Santos ou tio da eterna solteira Dona Rosinha (de García Lorca). Ainda não foi biólogo. Mas esse seria um papel que provavelmente pouco lhe interessaria. Há muito que o sabe de cor.

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